
I. A história:
Os Sparring Partners são um colectivo de artistas formado por Alice Geirinhas, João Fonte Santa e Pedro Amaral.
Amigos, colegas na área da ilustração[1], companheiros de ideias e estéticas comuns, decidiram criar este projecto colectivo - paralelo às suas carreiras artísticas individuais - em 1995, na sequência de uma colaboração entre Pedro Amaral e João Fonte Santa para um stand na Feira do Livro de Lisboa. À vontade de trabalhar em conjunto não foi alheia também uma necessidade sentida pelos três artistas de contrariar o individualismo da década anterior.
Em 1995 apresentaram então a sua primeira individual - “Low” - na Galeria Zé dos Bois, inaugurando o espaço que esta associação ocupou na Rua de São Paulo, em Lisboa. Para a exposição o trio criou obras caracterizadas tecnicamente pelo uso do stencil e tintas industriais, incluindo a tinta em spray geralmente associada ao grafitti, e conceptualmente pelo recurso a imagens retiradas dos media, esvaziadas do seu sentido original por um processo de escolha quase aleatório. Diziam numa entrevista da época que “a ideia era fazer peças sobre a histeria dos media, aproveitando as imagens que são o lixo deles”[2]. Obras como “I’ll love you until June, I’ll fuck you until November” ou “Happiness of Mice” são alguns exemplos.
Seguiram participando em exposições colectivas a convite de companheiros de geração (ou de vocação), como Paulo Mendes que em 1996 comissaria “Zapping Ecstasy” no CAPC (Coimbra). O statement desta exposição coadunava-se na perfeição com o próprio processo dos Sparring Partners. Dizia-se então que “a multidisciplinariedade, a criação conjunta, a confrontação de meios é o caminho a seguir. A arte deve ser impura”.
No ano seguinte, participaram na exposição “Anatomias Contemporâneas”, hoje consensualmente apontada como marco crucial na historiografia da arte contemporânea portuguesa. Comissariada por Paulo Cunha e Silva e Paulo Mendes, esta mostra reunia artistas de diversas gerações, incluindo nomes consagrados como Paula Rego, Helena Almeida, Alberto Carneiro, Julião Sarmento ou Pedro Cabrita Reis. Questionava-se aqui o conceito de corpo - temática tão cara aos anos 90 - de uma forma sistemática e altamente estruturada em torno de dois eixos principais: corpo sem orgãos (à maneira de Artaud) e corpo com orgãos. Os Sparring integraram o núcleo “Força/ Poder” com a enorme tela “Low” que representa um torso hiper-musculado em escala de cinzentos.
Em 2001 confrontaram um outro trio - os Tone Scientists (Rui Toscano, Rui Valério e Carlos Roque) - no CAPC. Colaborando de forma menos presencial e mais através de “instruções”, produziram dois conjuntos de obras: Leading Silver Alternative #1, #2, #3 deveriam ser três telas com o mesmo formato pintadas apenas com a cor cinzento prata, explorando efeitos ópticos, o que acontece em duas delas; mas a menina do grupo decidiu ser mais arisca e acrescentou um padrão laranja. Para o outro conjunto, cada um dos três artistas deveria produzir uma obra de autoria individual que abordasse o colectivo. Alice Geirinhas representou o “João Fonte Santa à espera do professor de desenho”, na Faculdade de Belas Artes ao lado de um caixote do lixo para onde iam os trabalhos indesejados; Pedro Amaral fez duas telas: uma representando a artista Eva Hesse e outra representando o revolucionário Andreas Baader; João Fonte Santa resolveu clarificar as coisas com uma chapa espelhada ondulada (por isso reflectora e deformadora) onde se lê a definição da expressão “Sparring Partners”.
No mesmo ano participaram na exposição “Círculo F”, também no CAPC, comissariada por Vítor Diniz, ao lado de nomes internacionalmente consagrados como Mariko Mori ou Sam Taylor-Wood e apresentaram-se como curadores na mostra “The Sparring Partners Academy Art Collection”, na Zé dos Bois. Esta sátira ao coleccionismo de arte nacional contou com a consultoria (é essa a expressão usada pelos próprios) de Pedro Cabral Santo e reunia um “grupo heterogéneo de activistas plásticos”, desde nomes dos anos 80 (alguns do Homeostéticos) até artistas em início de carreira como Isabel Carvalho, Eduardo Matos ou João Onofre. Pretendia-se nesta exposição indagar “a estética mutante caracterizadora do discurso artístico pós-contemporâneo”, perguntando: “Quem somos? De onde vimos? Para onde vamos?”
2002 é tempo de antologia de iniciativa própria. Numa casa devoluta no Largo do Mercado do Chão do Loureiro, os Sparring Partners reuniram o seu corpo de trabalho sob o título, diríamos emblemático, “Thieves Like Us”.
No ano seguinte foram convidados por António Olaio a participar na colectiva “Coimbra C”, no CAPC. Girando a exposição em torno da própria cidade, foi-lhes proposto trabalhar sobre a Praça da República, local de encontro e confraternização dos estudantes coimbrenses. Partindo do espírito alegre, por (tantas) vezes regado a álcool, associado ao estilo de vida académico, os Sparring Partners pintaram telas coloridas, quase psicadélicas, que lembram pormenores de bandas desenhadas como a do Surfista Prateado.
Em 2004 o trio quis dizer que morreu. Na ZDB, integrando a exposição “Correi lágrimas minhas, disse o polícia”, apresentam “Sparring Partners Are Dead”, uma instalação que lembra uma câmara fúnebre, com três telas retratando os três artistas em perfil-silhueta e um lanchinho de “space-cakes” para animar os amigos que vieram ao velório.
Intercaladas com a participação na exposição “Toxic - O discurso do excesso”, no Hangar K7 da Fundição de Oeiras (2005), as seguintes aparições dos Sparring seriam novas tentativas de morrer: “Sparring Partners Are Dead” em versão performance no bar Purex, em Lisboa, que incluía uma imperdível Alice Geirinhas vestida de noiva (2006) e, passados quatro anos, nova apresentação da instalação a convite de Miguel Amado para a exposição “Tudo o que é sólido dissolve-se no ar...”, no Museu Berardo, desta feita com uma jarra de flores em lugar do “lanche”, pois havia que manter a seriedade institucional.
Os Sparring Partners não conseguem morrer. A sala que Miguel Amado lhes dedicou na dita exposição até poderia parecer uma homenagem póstuma, uma cerimónia de trasladação do corpo para o panteão, mas o curador “passou-lhes a perna” e ressuscitou-os, comissionando logo a seguir novas obras do trio para a exposição “A Filosofia do Dinheiro”, Museu da Cidade, Lisboa.
Agora, a Galeria 3+1 segue o exemplo e propõe-lhes uma nova vida acolhendo a primeira exposição dos Sparring Partners no circuito comercial.
II. O nome do colectivo
II.1. Definição:
Sparring partners é uma expressão utilizada no boxe e noutros desportos de combate para designar os parceiros de treino, uma espécie de adversários amigáveis.
O termo pode também ser usado para identificar uma pessoa com quem regularmente se tem discussões amigáveis.
Quando questionados acerca da escolha do nome para o colectivo por Célia Quico, em entrevista ao JL, Alice Geirinhas, João Fonte Santa e Pedro Amaral explicaram: os sparring partners “são os indivíduos que tipos como o Mike Tyson têm para treinar. O papel deles é apanhar porrada.” A jornalista retorquiu: “E vocês são os sparring partners da arte em Portugal? Os sacos de porrada?” Resposta: “Sim, mas temos cabedal para isso”.
II.2. Uma leitura possível:
Perdedores profissionais? Ao baixar as expectativas, assumindo-se como perdedores antes mesmo de entrarem em combate, o colectivo permite-se toda a liberdade criativa e experimental. Tal como muitos pugilistas iniciam a sua carreira como sparring, os três artistas encontram aqui um campo de experimentação e discussão que enriquece os seus percursos individuais. Não se tendo nada a perder, tem-se tudo a ganhar e eles ganham na soma das partes com o todo.
III. O título da exposição:
III.1. Definição (segundo Wikipédia):
Commodities é um termo de língua inglesa que significa mercadorias, sendo utilizado nas transacções comerciais de produtos de origem primária nas bolsas de mercadorias.
Usada como referência aos produtos de base em estado bruto (matérias-primas) ou com pequeno grau de industrialização, de qualidade quase uniforme, produzidos em grandes quantidades e por diferentes produtores. Estes produtos podem ser guardados por determinado período sem perda significativa de qualidade. O que torna os produtos de base muito importantes na economia é o facto de que, embora sejam mercadorias primárias, possuem cotação e "negociabilidade" globais.
Também pode ser utilizado para referir-se a produtos sem diferenciação.
III.2. Leitura sugerida:
Utilize as frases a negrito na definição acima e tente adequar ao trabalho dos Sparring Partners - algumas encaixam na perfeição, outras são discutíveis.
Tenha em conta que esta é a primeira exposição do colectivo numa galeria comercial.
Finalmente, reflicta sobre este excerto de uma entrevista aos autores aquando da sua primeira apresentação:
Pode-se falar de uma atitude Pop, não anda para aqui Warhol e companhia? “Está presente toda a Pop. Por coincidência, nós temos um trajecto semelhante ao dos artistas Pop dos anos 60 americanos, começamos pela ilustração e pela arte comercial.” Um deles é mais preciso, e afirma identificar-se com a postura de artista comercial e popular: “Espero mesmo no futuro fazer arte bem comercial. Até porque espero enriquecer”.
Rita Sobreiro
0 comentários:
Enviar um comentário